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Legenda: Coleção de exemplares da revista Veja. Ano desconhecido. Autor desconhecido.

VEJA: DA REPRESSÃO ÀS URNAS, O LUCRO OBRIGATÓRIO

Sem dúvidas, a denúncia seria extremamente relevante tanto pela ótica jornalística quanto mais para a opinião pública, dado o ineditismo das revelações, o fato de um ex-militar vir a público delatar o que havia “nas sombras” e a conturbada crise na política brasileira em meio ao processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello àquela altura. Porém, um outro detalhe não pode ser perdido de vista: o veículo, que, no caso, era a revista Veja

À época, o semanário já detinha uma vantajosa liderança entre seus concorrentes diretos como IstoÉ e Manchete, destaca Carla Silva, doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora da da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Autora da tese que se tornou livro, “Veja: o indispensável partido neoliberal (1989-2002)”, a pesquisadora aponta que o jornalismo investigativo praticado no periódico sobre casos ligados à política e à sociedade — como exemplificado nas reportagens “Anatomia da Sombra” e “Autópsia da Sombra” — foi determinante para reposicionar o veículo.

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Legenda: Capa da edição extra de Veja, de 30 de setembro de 1992. Reprodução: Veja.

“Assim como a Folha de S.Paulo se reinventou com a campanha das ‘Diretas Já!’, o Grupo Abril conseguiu colocar a Veja politicamente com o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Ela já registrava uma tiragem absurda para a época, mas, com o episódio, consegue se consolidar como parte do processo político. Ela integra, influi. A revista explorava muito suas capas, as ‘páginas amarelas’ e ajudava a pautar o debate parlamentar naquele momento, era respeitada como um sujeito político de interlocução”, diz.

Esse período de transformações editoriais e gráficas da revista simboliza articulações que são anteriores à própria formação de Veja, e demonstra como o Grupo Abril era hábil para se movimentar e ampliar seus poderes em influência econômica e política, em tempos de liberdade e mesmo durante a censura e a repressão.

“Foi um momento áureo em que não se acompanhava mais o processo de reestruturação, mas uma virada no termo de reestruturação do capitalismo. A Veja contribui com uma alteração de consumo e de costumes e com a construção do liberalismo brasileiro nos anos 1990 também.”

Em cima do muro… Mas mais para o lado de lá

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Legenda: O marechal Arthur da Costa e Silva em visita ao Congresso Nacional, em Brasília (DF), no dia de sua eleição indireta para a Presidência da República. Foto estampou a capa da revista Veja, cuja edição foi apreendida após decreto do AI-5. 3 de outubro de 1966.| Foto: Roberto Stuckert | Folhapress

A revista Veja foi lançada pelo Grupo Abril em 11 de setembro de 1968, três meses antes da promulgação do Ato Institucional Nº 5, o AI-5, dispositivo jurídico que introduziu um dos períodos mais repressivos da ditadura civil-militar no Brasil. ​​

Decretado pelo general Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, o ato suspendeu direitos constitucionais, permitiu a censura prévia, fechou o Congresso Nacional e cassou mandatos políticos. Era a demonstração de força do regime para usar todos os meios necessários de controle sobre a sociedade.

 

Um ano antes, organizações políticas de esquerda escolheram o caminho da luta armada como forma de resistir ao autoritarismo. A clandestinidade era o meio de sobrevivência de militantes, dirigentes e líderes oposicionistas que desafiavam o Estado e queriam atribuí-lo ao proletariado.

O veículo foi criado por Roberto Civita, filho do empresário Victor Civita, que, após anos de estágio na editora Time Inc., nos Estados Unidos, sentia-se preparado para formatar uma revista aos moldes do periódico norte-americano Time. A pedido do pai, voltou ao Brasil com a condição de criar versões de Fortune, que veio a ser a Exame, da homônima Playboy, e de Time, nomeada Veja.

Para a professora, sobre este momento, não pode ser esquecido como o grupo organizava seus interesses.

“Tem o lado editorial, mas tem ainda o sentido de que a empresa vai se especializar em distribuição e isso vai ser essencial para o crescimento deles. Não adianta publicar se não conseguir distribuir. E essa expansão se estende até aos anos 1990. A empresa chegava onde nem os Correios chegavam. A capacidade de impressão era grande”, destaca Silva. “Nós não podemos nos esquecer ainda que a Editora Abril foi responsável pelas publicações do Mobral”, acrescenta. 

O Mobral, sigla para Movimento Brasileiro de Alfabetização, foi um programa educacional criado no Brasil durante a ditadura civil-militar, em 1967, e extinto pelo governo José Sarney, em 1985. 

O projeto foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mesmo no regime de exceção, no ano de 1975, devido a indícios de desvio de recursos e manipulação de dados oficiais.

Apesar do Grupo Abril manter relações estreitas com os militares, no âmbito jornalístico, a Veja propunha uma linha editorial que buscava se deslocar em parte do que caracterizava o período. Ocasionalmente, havia pautas que denunciavam violações de direitos humanos, mas, com um público-alvo inicialmente mais ligado à elite empresarial, Silva observa que a revista desempenhou um papel significativo na defesa das políticas econômicas e das grandes obras de engenharia desenvolvidas pelo governo federal à época. 

“A revista não era obrigada a fazer isso, mas o Grupo Abril, como um todo, mantinha muitos negócios. Era importante o crescimento do turismo, de rodovias. Por exemplo, eles editavam a revista Quatro Rodas, que era muito importante para que as pessoas conseguissem mapas e encontrassem melhores hotéis e restaurantes nas estradas com a pontuação de estrelas”, aponta. 

Do ponto de vista ideológico, a pesquisadora observa que existe uma postura de “coerência liberal”, melhor demonstrada em iniciativas como a denúncia de torturas. “Isso seria um sinal de que alguns limites pareciam ser intoleráveis para o próprio grupo”, comenta.

Para Silva, os diretores de redação foram “peças-chaves na história da revista”. À época das reportagens de Expedito Filho, Mário Sérgio Conti comandava a equipe jornalística do veículo e permaneceu na função até o ano de 1998. Ela cita que o próprio Roberto Civita, que assinou um editorial quando Conti foi substituído, destacou que o mandato do jornalista foi marcado por matérias que denunciavam a corrupção na política. 

Mino Carta foi o primeiro diretor de redação de Veja, num período em que Silva avalia que houve “alguma liberdade editorial em troca da necessidade da revista de se afirmar jornalisticamente”. De 1976 a 1991 — antes de Conti dirigir a revista —, José Roberto Guzzo assumiu as rédeas do veículo. 

A pesquisadora observa que o novo diretor era influenciado diretamente por Elio Gaspari, devido à sintonia do veterano jornalista com os ditadores e a defesa pela abertura ao capital estrangeiro e as diretrizes do mercado financeiro. Contudo, ela destaca que a revista apoiou a campanha Diretas Já!. 

“Era como se fosse uma convicção de que apenas o processo democrático poderia aprofundar bem as reformas neoliberais”, diz. Essa visão, contudo, era sustentada por uma opinião do veículo de que “por ter amadurecido em vinte anos, o país poderia se sentir pronto para escolher um presidente”.

 

Democracia alcançada, novas metas traçadas

 

O grande salto para a relevância da revista começa a ser desenhado simultaneamente ao processo de promulgação da Constituição Federal, em 1988, e o Grupo Abril se apresenta como espaço de interlocução política com a criação do Fórum Nacional, integrado ao Instituto Nacional de Altos Estudos, fundado no mesmo ano de 1988.

 

Coordenado pelo ex-ministro da Fazenda, João Paulo dos Reis Velloso, o programa propunha-se como “moderno” para o momento e defendia “uma contra-reforma moral e intelectual”.  Silva observa que, em muitos momentos, o apoio de Veja a diferentes governos se deu mediante o cumprimento de condições estabelecidas em consenso por sujeitos que compunham os debates. 

 

“[O fórum] era como um aparelho que pensa, faz cursos, publica livros, organiza palestras, que vai fazer formação. E não existe órgão de imprensa que consiga atuar politicamente, que consiga dar linha política se não existir organização para ele”, conta.

 

A pesquisadora destaca que o surgimento do fórum ocorreu ainda nos primeiros anos de existência do Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, também criado em 1988. 

 

“Feita a transição do ponto de vista político, era preciso aprofundar a transição do ponto de vista econômico também, da saída da reestruturação produtiva, da crise de acumulação. Já havia necessidade, para eles, em termos de projeto, de aprofundar o que chamo de ‘reforma neoliberal’ porque viria a ser isso: mudança na estrutura da organização legislativa que permitisse a ampla abertura do capital internacional, acabar com barreiras para empresas de produtos internacionais e desregulamentação do trabalho de diferentes formas”, explica.

A motivação subentendida das denúncias

Reposicionamentos à parte, a veiculação das matérias não isenta o veículo e seu grupo da aliança midiática que sustentou o período ditatorial, tampouco demonstra uma filiação da empresa à causa de vítimas e familiares de desaparecidos, mortos e presos políticos durante os anos de repressão. 

Silva opina que, para o veículo, a publicação de reportagens como “Anatomia da Sombra” e “Autópsia da Sombra” tem caráter circunstancial e não reflete um engajamento por justiça histórica. “Não se percebe outros sujeitos que estão ali em uma luta por verdade, memória e justiça no Brasil naquela época. A luta coletiva não aparece na denúncia, que parece ser vista mais como um fato interessante do ponto de vista jornalístico. Pelo menos eu leio dessa forma”, comenta.

Em suas pesquisas, Silva observa que, ao longo dos anos 1990, Veja explicitava que os generais “penduraram a chuteira”, mas certas matérias insinuavam que eles estariam prontos “a qualquer tempo para salvar o país” dentro da lógica que se instaura no País após a promulgação da nova Carta Maior. Ao mesmo tempo em que a revista decide “rasgar seda” para Fernando Henrique Cardoso como “príncipe dos sociólogos”, contemporiza também com o general Ernesto Geisel e o reporta como um grande intelectual.

Especialmente em 1992, no auge da crise política, Silva vê que a revista buscava se equilibrar entre diferentes interesses de importantes figuras e grupos na política nos momentos finais e no pós-impeachment do governo Fernando Collor de Mello. “Há uma tentativa de dizer: ‘resistimos a essa tempestade bravamente!’, no sentido de que agora estamos prontos para uma democracia — o que não impede que ela não tenha apoiado a saída mais conservadora possível”.

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Legenda: Capa da revista Veja, janeiro de 1992. Reprodução: Veja.

A historiadora cita uma reportagem em que se destacava a importância de um gabinete formado por ministros experientes para salvar o governo em crise — todos do Partido da Frente Liberal (PFL), legenda de maior expressão à época e que herdou o maior número de correligionários antes filiados a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), braço partidário histórico da ditadura civil-militar. Entre os políticos, estavam os ex-senadores Jorge Bornhausen e Marco Maciel.

“Era como se a revista dissesse: ‘alguns por aí podem dizer que ele [Collor] trouxe a velha turma de volta, mas a gente tem que relevar porque eles são a salvação agora para o País’. São pessoas que não eram militares, apesar de identificados com os ditadores. São apresentados pela Veja como necessários no momento de crise”, comenta.

Sem posicionamento claro, sem memória cobrada

Silva enfatiza a importância de entender a história da Veja não apenas como uma cronologia de eventos, mas como um reflexo das tensões e interesses que moldaram a sociedade brasileira ao longo das décadas tanto nos planos de debate político e social quanto nos padrões de consumo e de comportamento. 

“Na época dos anos 1990, você não entrava num consultório médico, por exemplo, que não tivesse uma revista Veja. Mesmo que fosse uma edição de um ou dois meses atrás. Era de uma dimensão que a gente dificilmente consegue visualizar hoje em dia”. 

A pesquisadora relembra ainda que a revista dispunha de uma importante vantagem comercial. “Eles conseguiam vender o pacote inteiro. Eram muito comuns aquelas promoções como ‘compre duas e ganhe mais uma’, e você ganhava desconto num exemplar da Elle, por exemplo. Isso nos ajuda a compreender esse grande alcance da Veja que se inicia nos anos 1990”.

Tamanha abrangência, contudo, não foi acompanhada de práticas que poderiam apartá-la de conflitos éticos. Silva conclui que mais importante para Veja foi valer-se de uma certa ambiguidade por fins comerciais, mesmo que se prejudique uma relação de consciência histórica que avalia ser importante para o público leitor.

“Não existe mea culpa. Depois de um tempo, a revista vai dizer que ajudou a reconstruir a democracia, que se pintou de verde e amarelo. Ela quebra esse conhecimento histórico, esse senso de pertencimento que faria as pessoas perguntarem: ‘Espera, eles não pensavam outra coisa?’. Não tem memória histórica no sentido de esclarecer que os nossos atos hoje têm consequência amanhã. Isso não existe na Veja, pelo menos não no período que eu estudei”, finaliza.

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