top of page
SOMBRA (13).png

Legenda: Campanha pela promulgação da Lei da Anistia, em Belo Horizonte, 1979. | Foto: Claudio Versiani

SOMBRAS FOTOGRAFADAS

​

Com uma carreira de quatro décadas no fotojornalismo, Claudio Versiani testemunhou profundas transformações na sua área de atuação, movidas, em sua grande maioria, pelo avanço da tecnologia. Mas esse não foi o único elemento desafiador para a sua profissão. 

 

O fotógrafo observa que os movimentos políticos são um grande estímulo — seja pela indignação, dado o avanço da extrema-direita ao redor do mundo, seja pela luta e pelo instinto de sobrevivência, que contempla com suas lentes sobre “pessoas comuns”.

 

“Eu considero o jornalismo um grande privilégio, sabe? Basicamente, te pagam para contar histórias. E, particularmente, acho o Brasil fabuloso nesse quesito. Gosto de fotografar gente, seja no interior de Minas Gerais ou na Austrália. Sempre gostei muito de história em suas versões políticas, sociais, do mundo, mas sobretudo as pessoais. E o jornalismo sempre me deu essas opções. Você pode contar a história do ‘seu João’ da esquina, que pode ser comum ou corrente — mas interessante, como todo mundo tem uma —, e, num outro dia, estar a postos para o registrar um encontro entre ditadores como Augusto Pinochet e João Batista Figueiredo. Triste memória”, conta.

004.jpg

Generais João Batista Figueiredo e Augusto Pinochet | Chile | 1980 - Foto: Claudio Versiani

Versiani relembra o momento:

Lentes para a reabertura

 

Versiani começou sua jornada como repórter fotográfico em 1978, em Belo Horizonte (MG), no jornal O Globo, durante os últimos anos da era Ernesto Geisel. Sobre o período, relembra uma grande apreensão devido às manifestações que reivindicavam o fim da ditadura civil-militar e destaca que as passeatas mais numerosas eram lideradas justamente lideradas por organizações sindicais, que, anos depois, ajudariam a criar o Partido dos Trabalhadores (PT). “Eu, obviamente, não concordava [com a repressão]. E nas ruas havia muito mais gente que discordava. Era punk. Eu corria muito de policiais, mas apanhei pouco, tanto em Belo Horizonte, quanto em São Paulo”, enfatiza. 

 

Da época, menciona ainda as grandes greves de metalúrgicos em cidades do ABC - região da grande São Paulo formada pelos municípios de Diadema, Santo André, São Bernardo do Campo e  São Caetano - e dos simbólicos protestos da campanha ‘Diretas Já!’. “Fica um sentimento de indignação, sabe? Porque você está ali, você faz jornalismo, registra as imagens, mas você também se reconhece brasileiro e quer ter direitos básicos. E isso não havia. Não havia como ainda não existem para muitas pessoas no Brasil, mas liberdade de expressão todos têm. Tantos que alguns até abusam e pedem intervenção militar, isso quando não elegem extremistas mundo afora”.

018.jpg

Legenda: José Sarney, presidente da República, Brasília (DF), em 1985. | Foto: Claudio Versiani

Passada a redemocratização, o trauma da morte de Tancredo Neves, vitorioso em eleição indireta, e a posse de José Sarney na presidência da República, a batalha seguinte era a Assembleia Nacional Constituinte. Versiani mudou-se em definitivo para Brasília (DF) no ano de sua instalação, em 1987. 

 

“Trabalhava muito. Eu começava por volta das 9:00 da manhã e, às vezes, rolava votação madrugada adentro. E, ainda, algumas vezes saía do Congresso Nacional e precisava cobrir jantares em que Ulysses Guimarães ia se encontrar com outros políticos. E a Constituinte era uma loucura. Você tinha uma penca de congressistas de um nível intelectual absurdo, como Fernando Henrique Cardoso, Lula, Mário Covas, Paulo Brossard. Eles eram fantásticos”, recorda. 

 

Brevemente, passou pela IstoÉ, mas na Veja permaneceu por um longo tempo. Mais exatamente até o ano de 1992.

Três histórias sobre 1992

Legenda: Fernando Collor de Mello, presidente da República, no Palácio da Alvorada. Ano desconhecido. | Foto: Claudio Versiani

Do fatídico ano, Versiani lembra-se mais da cobertura do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello. “A Veja que deu a capa ‘O Caçador de Marajás’ e garantiu fama nacional a ele por ter cortado supersalários em Alagoas foi a mesma que estampou o irmão Pedro Collor com a denúncia que o derrubou anos depois. As peças da imprensa nessa época são absolutamente irretocáveis”, diz. 

 

Para ele, o momento era difícil e exigia que a cobertura da mídia estivesse à altura da relevância e da sensibilidade do assunto. Era a representação político-partidária em xeque após tantos anos sem eleições diretas. “As decisões editoriais eram muitíssimo complicadas porque era um tema muito delicado, de uma democracia iniciante. A revista pautou o impeachment de um presidente da República e acabou por compor, junto a IstoÉ, o processo político”.

 

“Foram comprovadas as falcatruas de PC Farias, que foram denunciadas pela revista, e não houve opção para o Congresso Nacional a não ser votar o impeachment”, destaca.

 

O período conturbado ainda reservaria a Versiani duas passagens muito marcantes. A primeira se relaciona justamente à reportagem “Anatomia da Sombra”. Foi o fotógrafo quem registrou as imagens do pediatra João Henrique Ferreira de Carvalho, batizado pelos militares com o codinome “Jota”​​​​​

“Quando você fotografa um médico que aceitou colaborar com os ditadores, a história cresce. Vira uma história com H. Como pode um profissional que faz um juramento à vida, que vai ajudar as pessoas e faz exatamente o contrário? E por que ele faz? Estava em risco? Ele faz porque existe um interesse financeiro ou um interesse político, ou quem sabe os dois. Diante de um fato desses, um repórter mantém uma postura e um compromisso diferentes. Você sabe o material importante que precisa registrar, o que está em suas mãos. Faz 32 anos que essa reportagem foi publicada e ainda existe interesse nela. Isso porque nela existe repercussão social, política e histórica sobre a vida do Brasil”.

Distante das sombras, mas entre as hostes militares, outro episódio marcante para Versiani foi a investigação da revista sobre o caso de um coronel suspeito de utilizar a oficina da Base Aérea da Força Aérea Brasileira (FAB), em Brasília (DF), para falcatruas como a venda de peças de veículos. O coronel planejava lançar-se à política nas eleições de 1994 e a matéria jornalística foi frustrada.

Capturar a verdade

 

Aposentado, Versiani observa o futuro do jornalismo e do fotojornalismo como incerto. Avalia que, em geral, os jornais impressos vacilaram em não explorar as possibilidades da internet nos últimos anos e, com isso, acumulam perdas de público-leitor e de anunciantes. Por consequência, julga haver uma perda de relevância. Para o repórter, a mesma crise ainda se estendeu às redes sociais, “todas, atualmente, atravessadas por conflitos éticos”. 

 

“Por um lado, posso fazer uma matéria especial e cobrir casos como em Gaza ou na Ucrânia e vendê-la para um veículo como The New York Times. Eu não tenho com o que me preocupar. Mas eu posso publicar no meu website, no Instagram, e aí as fotos se tornam públicas. Temos então agora uma dinâmica de relação diferente. Mas eu não sei, sinceramente, para onde vamos e duvido que alguém saiba”, lamenta.


Quanto à sua atividade, Versiani enaltece a democracia e diz não haver representatividade legítima sem liberdade de expressão e sem imprensa livre. Sobre o trabalho do jornalismo profissional, avalia que, mesmo na tônica de denuncismo como testemunhou em Veja, impera cumprir a função social.

Legenda: Fernando Collor de Mello, tempos após a renúncia à Presidência da República. Ano desconhecido. | Foto: Claudio Versiani

“Não existia, propriamente, uma predisposição em matérias de denúncia, seja sobre os militares ou em relação a outros casos. O que existia e ainda existe sobre esse período são as histórias não contadas e que devem ser contadas. Nós falamos de um grupo que chegou ao cúmulo de falsear uma cena, de armar um suposto suicídio. Então, tanto lá [Veja], quanto em outros lugares, vejo profissionais engajados em cumprir sua responsabilidade. Sou um grande fã do jornalismo brasileiro. Somente existe a predisposição de contar a verdade.”

bottom of page