
Legenda: Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), registrada para a reportagem “Autópsia da Sombra”. 1992 | Foto: Ricardo Chvaicer

Legenda: Capa da revista Veja, de 20 de maio de 1992.
A revista Veja havia obtido contracheques do imposto de renda de PC entre os anos de 1987 e 1991 e a reportagem se somava a uma série de denúncias publicadas com exclusividade pelo veículo que culminaram na abertura de um processo de impeachment e na renúncia do ex-presidente. Inclusive, a entrevista bombástica que Pedro Collor, irmão do então presidente, concedeu ao jornalista Luís Costa Pinto foi publicada pelo periódico uma semana depois, em 27 de maio.
Envolvida com a crise política, Veja reservou à reportagem “Anatomia da Sombra” seis páginas. Seu processo de apuração foi paralelo ao de “Autópsia da Sombra”, cujas etapas foram interrompidas algumas vezes. Vez ou outra, as apurações da primeira avançavam e necessitavam de maior dedicação de Expedito Filho, enquanto o processo de desenvolvimento da segunda era marcado por uma relação de desconfiança entre o repórter e sua fonte, o ex-sargento Marival Dias Chaves do Canto. O repórter relatou suas primeiras impressões:
“Nós não nos conhecíamos e eu achava que a ideia da matéria era muito arriscada. À primeira vista o contato não foi bom. Ele mantinha um semblante fechado, como se desconfiasse de mim desde o início. Eu era bem garoto e ele achava que eu parecia mais novo do que realmente era. Acho que, na opinião dele, um repórter deveria ser alguém sênior, mas, àquela altura, eu já mantinha uma posição na revista e estava entre os principais nomes. E foi a Veja quem me escolheu para fazer a matéria”.
Até que as peças se encaixem
Expedito Filho revelou que a fonte inicial para as reportagens foi o reverendo Jaime Wright. A matéria surgiu no Espírito Santo (ES), onde moravam o religioso e o ex-militar. “Marcaram um almoço para que eu conhecesse o Marival, e, nesse dia, estava o Mário Sérgio Conti. Foi ele quem me informou que eu conduziria a matéria. Numa outra reunião, a sós, planejamos o roteiro das viagens e tudo o que iríamos fazer”. No início, a relação era mais estranha do que o repórter supunha que poderia ser. Chaves era um sujeito calado e “passava horas, no carro, bem no começo, sem dizer uma palavra”. Por desconfiar do ex-militar, o repórter repassava com maior interesse à Veja todas as informações para onde e como iam juntos.
Os destinos eram lugares onde havia corpos de desaparecidos e imóveis locados para tortura e execução de presos políticos — “todo o dossiê que ele [Chaves] apresentou e foi confirmado na prática”.
Chaves mantinha informações sobre como os agentes do Estado “desmantelaram a esquerda” e que detalhavam todo o processo de infiltração, com os nomes das pessoas introduzidas nos movimentos clandestinos e os locais onde ocorreram mortes e torturas de então desaparecidos.
“Era uma matéria trabalhosa. Viajamos um mês ou dois meses, eu acho. E, em alguns momentos, precisava conversar com outras pessoas e ele não podia participar e aguardava lá no Espírito Santo. Não pelo medo de ser reconhecido, mas eu não queria abrir minhas fontes para ele. Eu checava o que ele me dizia com as minhas fontes, sem ter que levá-las a ele”.
As informações contidas em “Anatomia da Sombra” foram obtidas previamente e consideradas por Filho ainda mais delicadas porque “traziam pessoas que estavam acima de qualquer suspeita”. “Agi de um jeito muito cuidadoso para não atingir reputações de pessoas que poderiam não ter nada a ver”, conta o repórter. Porém, no decorrer da apuração, as informações batiam com o que Chaves também delatava. “Foi algo que me impressionou muito porque eu esperava o contrário, esperava que fosse somente uma desconfiança”. Estava confirmado que os militares não teriam como desorganizar a esquerda sem os “cachorros”.
De acordo com a reportagem, os integrantes de organizações e legendas de esquerda como a Ação Libertadora Nacional (ALN) e o Partido Comunista Brasileiro (PCB) que colaboravam com o regime ditatorial eram chamados de “cachorros” porque “tinham faro para descobrir a presa, abanavam o rabo para dizer o que haviam encontrado e estavam sempre presos pela coleira do militar encarregado de controlá-los”.
O esquema não era nada sofisticado, mas tático e eficiente. Filho detalha que funcionava da seguinte forma:
“Suponha que você seja de um partido de esquerda e marque uma reunião comigo. Eu marcaria um encontro com um terceiro, o terceiro marcaria um encontro com o quarto e o quinto caía. Entende? E aí seguia a ciranda de novo, partia do quarto, fazia um outro ponto… Esse esquema infiltrava militantes ‘pequenos’ e, a partir disso, alcançava pessoas mais relevantes.”
Legenda: Ilustração de Osvaldo, para a reportagem “Anatomia da Sombra”.
O passado confronta o presente
Dos infiltrados mais importantes, Filho relembra a história do pediatra João Henrique Ferreira de Carvalho, que era integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Para repassar informações aos militares, Carvalho levou uma vida dupla por três anos e foi batizado com o codinome “Jota”. Quando abordado por Filho, admitiu que colaborou com o regime militar e disse não se arrepender.

Legenda: João Henrique Ferreira de Carvalho, “Jota”. 1992. Foto: Claudio Versiani.
“Jota” foi o primeiro informante da ditadura civil-militar denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF). A ação foi aberta no dia 12 de setembro de 2016. O órgão acusava Carvalho de ter colaborado para a captura, tortura e morte de três de seus companheiros, em 1973, como já havia antecipado a reportagem anos antes.7
Ex-militantes da ALN apontavam, contudo, que onze pessoas que encontravam-se com Jota à época foram mortas — dez delas antes de serem levadas à prisão. “Em razão dos ‘serviços prestados’, o DOI-Codi lhe pagou uma operação plástica e lhe conferiu novos documentos”, denunciou o procurador Andrey Borges de Mendonça.
“Ele era apresentado como um modelo de infiltração. E precisávamos descobrir quem ele era”, diz Filho. “Os comentários eram de que ele havia devastado a ALN em São Paulo”. Após um tempo, o repórter conseguiu localizar o médico Jurandir Duarte Godoy, que ‘caiu’ com Jota. E ele contava uma história bem parecida com o que Chaves descreveu.
“Caíam dois, e aí ficavam numa sala, e o infiltrado tentava convencer o outro a entregar. Os agentes então começavam a torturar os dois. Com um, a tortura era falsa; com o outro, verdadeira. Os dois gritavam. O infiltrado falava: ‘já começou a entregar lá!’. Daí, o outro cedia e os militares reuniam elementos. E esse Jota começava a se infiltrar, fazia essa ciranda a cada dois pontos. Ele encontrava com um cara e esse não caía, mas o seguinte caía. Isso gerou, entre a esquerda, uma dúvida muito grande e muitos militantes levaram fama de traidores sem ter sido, de fato, porque não conseguiram descobrir o esquema à época.”
A procura por Jota não foi fácil. O militante que até então era visto como um nome insignificante apareceu até mesmo denunciado como informante num “quedograma” — um “escrito de guerra” redigido por pessoas na cadeia em um papel pequeno com informações extensas.
“Nesse ‘quedograma’ havia até mesmo - e não posso revelar nomes - uma pessoa do Tortura Nunca Mais e um outro que virou ministro anos depois”, revela Filho. “Começamos a desconfiar de alguns militantes, e por todos o Jota aparecia como um elo que resultava na queda das pessoas que passavam por ele. Era a partir dele que os militares capturavam os ‘cabeças’”.
As informações iniciais davam conta de que Jota trabalhava em Rondônia (RO) como médico, porém Filho contatou um secretário de Saúde local que informou que ele não estava mais lá. O endereço era Brasília (DF), mais fácil para Filho, que se dividia entre o fôlego das grandes reportagens investigativas e a cobertura política na capital federal.
“Daí eu convenci o Jurandir a irmos juntos no consultório. Marquei um horário como se eu tivesse um filho que precisava do atendimento dele. Na hora, entramos juntos e ele pergunta: ‘Cadê o garoto?’. Eu respondo: ‘Não tem garoto, mas tem aqui o Jurandir’, que passa a falar com ele e pergunta: ‘Você não se lembra de mim?’. O semblante dele caiu. Ele tentou se defender, chegou a dizer: ‘Só fiz aquilo porque vocês estavam errados!’. Enfim, tenta justificar a sua participação na história.”
Filho relembra que se apresentou como jornalista e que Jota relutou em dar mais informações, embora toda a conversa inicial tenha sido registrada em reportagem. Restou a dúvida: “Porque ele resolveu se entregar à polícia quando estava livre em Buenos Aires?”. Jota havia sido delatado por um militante capturado em Anápolis (GO), no fim de 1972.
A capital argentina era “passagem obrigatória para os militantes de esquerda que iriam se estabelecer no Chile do presidente socialista Salvador Allende”. Mas lá, “mudou de ideia” e voltou para o Brasil já para tornar-se um informante.
Ao repórter, já havia dito que mantinha uma consciência tranquila — como consta na redação da matéria. Talvez não o suficiente. No dia seguinte, o ex-informante ligou para Filho por uma nova conversa. Contudo, as condições não podiam ser mais aceitas.
“Ele dizia: ‘Olha, eu não posso aparecer. Não posso entrar na matéria!’ e eu respondi que ele estaria incluído, que havia um relatório com o nome dele registrado. Daí, ele cresceu: ‘Se você continuar com essa matéria, eu vou te pegar’. E fez outras ameaças. Ele disse: ‘Eu vou voltar a ser o ‘Jota’”. Filho relata não ter se sentido ameaçado e “Jota” também nada fez.
Até a sombra se dissipar

Legenda: Luciano Siqueira, militante histórico do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). 1992. Foto: Antônio Milena.
A reportagem “Anatomia da Sombra” traz ainda revelações sobre outros nomes apontados como ex-informantes. São eles: Luciano Siqueira, militante histórico do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e quatro vezes vice-prefeito de Recife (PE), e Severino Theodoro de Mello, então dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o último sobrevivente da Intentona Comunista, em 1935, e secretário particular de Luís Carlos Prestes durante o exílio em Moscou, na Rússia. À época, ambos negaram o envolvimento. “Anos depois, o PCB confirmou informações sobre o Mello, e o PCdoB também confirmou o que havia sido dito sobre o Luciano Siqueira. As coisas se esclareceram”, diz Filho.

Legenda: Teodoro Melo, militante histórico do PCB, em entrevista à Veja para as reportagens “Anatomia da Sombra” e “Autópsia da Sombra”. Reprodução: Veja. 1992. Foto: Antônio Milena
Em razão dessa apuração, o repórter afastou-se de Chaves por alguns meses. Porém, a publicação reaproximou o contato. “Ele achava que a gente não ia chegar lá, ele não levou muita fé em mim. Quando eu fiz essa primeira matéria, ele observou a repercussão, viu uma mobilização do Congresso Nacional e entre pessoas ligadas à esquerda. Ele poderia duvidar que nós faríamos uma matéria que pudesse ser responsável, que nós íamos mexer em assuntos sem poder comprová-los e nós fizemos justamente o contrário”.
Em “Autópsia da Sombra”, Chaves confirma o envolvimento dos três nomes apontados por Filho e inclui no rol o advogado Hamilton de França e o médico Fiúza de Mello. “Ele me disse: ‘Vocês realmente trouxeram as informações corretas e a revista levou a sério’. Ele ficou surpreso com tudo o que a gente apurou. E, então, uma parte havia sido apurada e outra tínhamos segurado para o momento em que ele aceitou a entrevista”.
A euforia foi grande. Os detalhes antes apurados em viagens foram novamente checados. “Corrigimos algumas imprecisões de data, às vezes uma informação pouco consistente era vista de novo”. Para o repórter, o processo foi “sofrido”, devido a tantos meses marcados por negociação e extensa investigação.
“Eu mergulhava no passado. A apuração foi muito difícil, mas muito bonita. Era como avistar uma estrela no céu a anos-luz e fazer uma visita, entende? Você visitava uma sombra do passado. Conversei com pessoas tanto que participaram, quanto com outras que reprimiram a luta armada, por exemplo. Entrei num mundo de sofrimento muito grande das pessoas, de famílias que ainda buscavam respostas. Quando olho para trás, vejo que era uma reportagem que precisava ser feita e sinto muito orgulho dela.”
Uma emoção de famílias — todas elas

Legenda: Vladimir Herzog | Foto: Instituto Vladimir Herzog - Divulgação
Chaves fez revelações sobre o que aconteceu com notórias vítimas da repressão, entre elas o jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975, e o deputado federal Rubens Paiva, morto em 1971. “Eu cheguei a falar com uma figura que havia sido muito influente durante o governo Geisel, e o que ele falava realmente batia com as informações. Tínhamos então uma certeza muito grande”, diz o repórter.
À reportagem, Chaves apontou que quem poderia dar maiores detalhes sobre a morte de Vladimir Herzog era o então major André Leite Pereira Filho, que chefiou a equipe responsável pelo interrogatório do jornalista. Anos mais tarde, à Comissão Nacional da Verdade (CNV), declarou que Pereira Filho participou de uma operação realizada com o objetivo de ocultar os restos mortais de Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck Machado, mortos em Rio Verde (GO).
No relatório final, publicado em 2014, a comissão responsabilizou Arildo de Toledo Viana, Armando Cânger Rodrigues e Harry Shibata pela assinatura do laudo de falso suicídio do jornalista. À época atuante na Auditoria Militar do Exército em São Paulo, Murilo Fernando Alexander foi apontado como um dos facilitadores da ocultação da causa de morte, enquanto o investigador Pedro Antônio Mira Grancieri admitiu participação no assassinato de Herzog.

Legenda: Rubens Beyrodt Paiva | Reprodução: Memorial da Resistência
Na matéria, Chaves acusou os irmãos Jacy e Jurandyr Ochsendorf e Souza pelo homicídio e ocultação do cadáver de Rubens Paiva. Ambos atuavam na Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), e foram denunciados criminalmente pelo Ministério Público Federal (MPF), em maio de 2014.
Nereu de Mattos Peixoto foi denunciado pela Comissão Nacional da Verdade pelos crimes de detenção ilegal, tortura e execução de Paiva. Antônio Fernando Hughes de Carvalho, José Antônio Nogueira Belham, Raymundo Ronaldo Campos e Rubens Paim Sampaio foram os demais agentes militares apontados por participação no crime que vitimou o político.
Da repercussão, Filho lembra com emoção do jeito que as famílias reagiram à publicação. “Eu fiquei muito comovido, mas sabia que eu deveria ter o máximo de concentração no processo para não errar. O meu foco era apurar, em fazer a coisa, tanto que, às vezes, me tirava a dimensão emocional”, diz. Com alguns familiares, diz ter trocado o telefone. “Eu não podia ter lado, mas lidava com um grande volume de informações e uma intensa rotina de viagens”, conta o repórter, que recorda ter conduzido todo o processo sem um gravador.
Famílias de desaparecidos, mortos e presos políticos aliviaram-se na revelação indiretamente motivadas por outra família, a de Marival Dias Chaves do Canto. Filho relembra que o timing político da matéria foi essencial, uma vez que uma das filhas do ex-sargento estava engajada com os protestos pela renúncia do presidente Fernando Collor de Mello.
“Ele ficou mais disposto a falar, eu passei a investigá-lo também. Quando fui visitá-lo em casa, no Espírito Santo, conheci a esposa e as filhas. Havia um lado da pauta que era ‘mais Marival’, que precisávamos saber para traçar a matéria e eu sinto que isso incomodou um pouco. Afinal, ele era apenas um analista ou um torturador? Mas, enfim, nós conseguimos mostrar a ele que esclarecer era o nosso papel. E ele passou a compartilhar informações mais pessoais, como o posicionamento das filhas, que transpareceu”.
Desgosto por todo lado
Filho avalia que as revelações trazidas na matéria não representavam uma ameaça de reação das Forças Armadas à ordem institucional do País. O repórter lembra de um setor ou outro que se sentiu “atingido” pela reportagem, no que classifica como “ruídos”, e diz que desagradou todas as partes.
“A esquerda não gostou, por causa das revelações sobre o esquema dos infiltrados, e as Forças Armadas também não gostaram. Mas os dois lados foram bem ouvidos”, alega.
A imagem ficou muito ruim para o Exército, alguns representantes reclamaram, mas, de acordo com o repórter, naquela época, os militares estavam com uma postura mais profissional. “Eles pareciam estar atuantes conforme a democracia”, o que era um gesto totalmente oposto ao testemunhado anteriormente pelo jornalista.
“Na matéria que fiz sobre os 10 anos do [atentado no] Riocentro, em 1991, senti uma reação muito mais pesada. Eles sentiam medo de que se provocasse algo para mexer na Lei de Anistia. E esse não era o objetivo da reportagem. Queria contar o que aconteceu e os desdobramentos dependeriam do Congresso Nacional e da sociedade brasileira. A matéria revela detalhes inéditos, entrega uma grande parte oculta da história. Institucionalmente, o Exército não poderia fazer nada contra o Marival, que havia se aposentado.”
Ao repórter, Marival Chaves expôs a falta de unidade entre as três Forças, e, principalmente, entre os órgãos de inteligência de cada uma — o que não era, exatamente, uma novidade para Filho nem para a imprensa em geral, que, desde o regime, reportava tensões entre a Aeronáutica, o Exército e a Marinha. Por isso, não temeu se o ex-sargento poderia fornecer informações um tanto quanto enviesadas, que pudessem hipoteticamente blindar a Força a qual pertenceu e prejudicar as duas restantes. “O que ele disse sobre isso não chegou a ser inédito. Nós sabíamos de disputas internas, de uma rivalidade por protagonismo. Mas, saiba que quando o pau quebrava, estavam todos juntos!”
Para o repórter, o importante era saber quem era Chaves dentre os militares naquele período e como ele atuava. “A gente fez o dever de casa nisso!”
Esclarecimentos a prestar
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Legenda: Rio Novo, a ponte mais próxima de Avaré (SP), registrada para a reportagem “Autópsia da Sombra”. Reprodução: Veja | Foto: Antônio Milena
As matérias não apenas repercutiram, como também trouxeram consequências jurídicas. Do momento, Filho relembra que a Veja forneceu todo o amparo possível. O episódio em que se recorda de haver maior dificuldade foi durante as investigações sobre os corpos que teriam sido jogados de uma ponte sobre o Rio Novo e a represa Jurumirim, ambos em Avaré, no interior de São Paulo (SP).
“Foi uma experiência muito interessante, mas bem tumultuada. A Polícia Civil de São Paulo queria saber onde era, mas eu achava muito difícil encontrar corpos. Rios e mares são mutantes. Achava que isso era de difícil comprovação, mas julgava que a história fazia sentido. Outros desconfiavam do que o Marival afirmava.”
O advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, foi uma das pessoas que Filho relembra como mais “duras” durante o processo, em razão do que havia sido reportado sobre o militante histórico do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Luciano Siqueira. “Uns tempos depois, ele até se tornou minha fonte. Mas, até então, eu não tinha passado por essa pressão”, revela.
Sobre as investigações, conta ter se aliviado quando viu um “interesse legítimo” da Polícia Civil em apurar. “Eles estavam preocupados com o que havia acontecido, queriam saber, eram corretos nas perguntas e no trato. Não havia intimidação ou alguma tentativa de ocultação, não me pressionaram para que eu contasse a fonte ou a natureza de como obtive as informações. Isso levou algum tempo da minha rotina, mas já não era mais uma coisa que me preocupasse tanto devido a maior seriedade com que levavam o trabalho.”
SOMBRAS EXAMINADAS: COMO AS REPORTAGENS SE DESENVOLVERAM
Seis meses separam as publicações das reportagens “Anatomia da Sombra” e “Autópsia da Sombra”. A primeira matéria chegou às bancas no dia 20 de maio de 1992, porém o grande destaque que estampou a capa da edição foi a denúncia de corrupção e de enriquecimento ilícito de Paulo César Farias, o PC Farias, tesoureiro da vitoriosa campanha de Fernando Collor de Mello para a presidência da República, em 1989.
